i'm a poet.. i believe this world could be a better place..

I'm a poet. I believe this could be a better place..

01 julho, 2008

Agonia

Uma dor cortante. Silenciosa. A agonia descia pela minha garganta, pelo meio do peito, pelo meu estômago, esmagando-me. Sufocando-me.

A minha cabeça latejava. Senti a ilusão chegar mais uma vez: eventualmente iria explodir em mil pedaços cortantes e tudo terminaria.

A pressão desceu pelo nariz, desfigurando-me. Senti-me como um animal pronto a rosnar com angústia.

As lágrimas já não me incomodavam, ao invés disso, aliviavam a agonia, deixando-me fraca.

Queria desistir. E isso ainda me magoava mais. Os meus pés encolhiam-se e tocavam-se enquanto que todo o meu corpo se comprimia numa tentativa desesperada de sobreviver. De reprimir e expulsar a dor.

Odiava cada partícula do meu ser. Odiava não apenas o Mundo ou o Universo. Odiava toda a existência.

Cada vez mais fraca, mais sozinha, sentia-me como um papel que ardeu completamente por dentro mas se manteve inteiro. Pronto a desistir ao mínimo contacto. A se transformar em cinzas, levadas pelo tempo.

Por mais forte que tentasse ser, bastava a melodia recomeçar. Um relembrar e a cascata voltava a rebentar.

Queria mexer-me. “Talvez se fugir, para longe do meu mundo, a dor enfraqueça, confusa com a minha súbita coragem”, eu pensava, estupidamente. Mas eu não tinha essa coragem. Nem força para isso.
Apenas consegui abrir os olhos.


Então, estupefacta, observei o meu redor.

Seres inutilmente limpos, roupas esterilizadamente brancas. Objectos ainda mais inutilmente imaculados.
Uma cena muda, cómica.
As caras revelavam confusão. Impotência. Cercavam uma cama enquanto se olhavam, gesticulando e fazendo os instrumentos reluzir ainda mais.
Alguém deitado, revolto em agonia, era o centro de tudo aquilo.
Apesar da minha dor, do meu sufocar, senti necessidade de ver tudo aquilo de perto.
Deslizei até a cama e pairei.

Ninguém me olhou.
Ninguém me sentiu.

Inclinei-me e observei aquele ser. Conseguia sentir a sua agonia de tão forte que era. Ou seria a minha?

Bruscamente, como que tentando libertar-se ou em apenas outro espasmo de dor, a criatura voltou a cara para mim com outro gemido. Eu.
A confusão arrebatou-me e senti-me cair no vazio. Eu, apática. Eu, vazia. Eu, traumatizada.

Apesar das feições desfiguradas pela agonia, reconheci-me. Reconheci a minha dor.

Subitamente algo a brilhar captou a minha atenção, tirando-me daquela queda sem fim.
Voltei a olhar aquelas pessoas, aqueles seres tão diferentes de mim e no entanto, tão semelhantes.

Um olhar denunciou-os. Compreendi.
Todos se interrogavam… Como ajudar alguém que sofre sem causa física?


10 junho, 2008

Pedras e Lençois de Cetim Escarlate

Hoje olhei-me.
Deslizei até ao espelho.
Suspirei…


Deixei uma pequena e tímida gota escorrer-me pela cara.
E tirei a máscara.
Voltei a erguer os olhos.
Sentindo que me exigiam algo.
Uma única coisa,
Simples:
Que me olhasse.
Mas que olhasse até ao fundo de o meu ser,
Revoltando tudo e abrindo todas as janelas e armários.

Respirei fundo.
Lentamente.
Cedi.
Ainda mais lentamente deixei que a Morte me ajudasse,
Com toda a sua sabedoria e bondade.
Deixei que me fechassem os olhos
E guiassem até ao meu túmulo.
Senti-me deitada.
Sufocando.
Fria.

Mas não sozinha.

Abandonei todos os meus medos.
Umas mãos geladas deslizaram suavemente sobre as minhas pálpebras,

Deixando me sozinha.

Então vi-me:
Pequenos erros,
Ligados por sorrisos,
Formavam pequenas pedras.
Por onde lágrimas escorriam
E desilusões e paixões se deleitavam.

Com o passar do tempo,
Como um arco-íris a aparecer,
Vi-me: formar-me e crescer,
Sem qualquer pudor.


E as pedras foram ganhando brilho,
Ficando quentes.
E as lágrimas uniram-se ao que restava dos sorrisos, desilusões e paixões,
Formando lençóis de cetim escarlate.
E o sangue que agora banhava as pedras,
Tornou-as ossos, carne e pele.
E então ouvi algo bater,
Devagar,
Pesarosamente.
Depois mais depressa,
Mais forte,
Teimando sair da sua dimensão irreal.

Abri os olhos e contemplei…
Toda a minha pele cintilava,
Liberta de máscaras,
Deixando o meu coração gritar até perder o esplendor.
Cada pequena pedra do meu ser rejubilava
Por deixar, para trás, os complexos.
E respirar.

Hoje olhei-me.
Deslizei com o vento.
Superei…